quinta-feira, 23 de abril de 2009

Existe vida emocional nas empresas?

Gilberto de Moraes – RH.com.br


Os vários papéis que vivenciamos no ambiente social, familiar e profissional são definidos como espaços psicológicos que possibilitam o exercício da vida emocional.
É através deles que exercemos nossa capacidade de vivenciar e desenvolver nossas emoções. Como são sempre captados pela mesma pessoa, não podem ser entendidos de forma distinta, porque tudo que se faz em uma esfera, acaba interferindo nas outras.
Dentre todos os papéis conhecidos, o profissional assume uma importância significativa para todos nós, absorvendo grande parte da nossa energia e preocupações, muitas vezes em detrimento do próprio papel familiar, por exemplo.
Tal valor pode ser mensurado pela lembrança do fato de que o trabalho, muitas vezes, se confunde com a nossa própria identidade como pessoa. Nesse caso, sempre procuraremos preservá-la a todo custo. Cabe observar que o exercício do papel profissional não se estabelece apenas quando estamos inseridos no ambiente organizacional. Mesmo fora da empresa, trabalhando como autônomo, em casa, por exemplo, também estaremos vivenciando esse papel em toda a sua complexidade. Muitos questionamentos podem surgir dessas reflexões. Um em particular - e que me motivou a escrever esse artigo - busca respostas para a seguinte questão: como o papel profissional é exercido em uma corporação?
Poderíamos falar de vida emocional nas organizações?
Antes de tudo, gostaria de citar um trecho de uma entrevista que o coach chileno Julio Olalla Mayor, mentor do Coaching Ontológico, concedeu à Revista HSM Management, em sua edição de junho de 2001. Perguntado sobre o que é Coaching, ele respondeu: "Coaching tem a ver com criar, na empresa, um espaço no qual se declare especificamente que, para obter êxito no que fazem, as pessoas precisam do apoio de outras. É o reconhecimento público de uma insuficiência, que não é ruim em si: preciso conversar em um âmbito declarado de aprendizado no qual eu sinta apoio, não só no sentido operacional, mas em minha "emotividade" e também em minha "corporalidade", porque enfrento situações que estão me superando". "As formas tradicionais de aprender, orientadas para habilidades específicas, são necessárias, é claro. Porém, além disso, existe outra necessidade de aprendizado que tem a ver com dimensões muito mais profundas do ser humano, que hoje aparecem com muita força, porque vivemos em um mundo que muda permanentemente e no qual é difícil se encontrar, inclusive consigo mesmo", completa. Como vemos, parece que o resgate da vida emocional, no verdadeiro exercício do papel profissional, deve ser levado em consideração quando se trata de adaptar as pessoas às mudanças.
Contudo, o que se observa é que o foco ainda insiste em se manter na valorização das competências técnicas, muitas vezes em detrimento das competências humanas, amplamente divulgadas como imprescindíveis para o sucesso das pessoas e, por conseguinte, das próprias empresas, mas pouco consideradas de fato. Nesse sentido, alguns poderiam argumentar, como já ouvi por diversas vezes, que a empresa não é lugar certo para se vivenciar "emoções", pois o mundo corporativo necessita de decisões e essas, como se sabe, pertencem ao plano da racionalidade.
Outros poderiam afirmar que não é bem assim, mas não entendem como poderiam viver a sua emotividade na organização, pois da última vez que tentaram fazê-lo acabaram demitidos. Para ilustrar o que estou querendo dizer, imagine o que aconteceria com um executivo que, diante da impossibilidade de resolver um problema qualquer, tivesse que assumir, junto aos seus superiores imediatos, o fato de não ter a competência solicitada para realizar aquela tarefa. Assumir as próprias emoções é um pouco poder admitir duas verdades: "às vezes preciso de ajuda" e "não sou o dono da verdade". Isso, sabemos, nem sempre é feito de maneira assertiva. Como poderemos então buscar a criatividade, que é sinônimo de inovação, ou mesmo o bom relacionamento interpessoal, a tão propalada inteligência emocional, a liderança servidora, a comunicação, a assertividade, a resiliência, entre tantas outras competências humanas necessárias para que a organização caminhe, sem que se permita o pleno exercício da vida emocional na empresa?
A maioria dos programas voltados para o desenvolvimento de lideranças, encontrados atualmente no mercado, busca ensinar essas competências. Contudo, fica a dúvida sobre a sua real eficácia. Ao retornar para a empresa, desconfio que essas lideranças não devam encontrar um ambiente propício para aplicá-las.
Voltando um pouco mais ao que disse Julio Olalla, talvez os líderes e demais profissionais que detenham poder e influência na organização, não estejam conseguindo, de forma assertiva, manifestar suas principais necessidades. Sem esse reconhecimento explícito fica difícil iniciar, como apontou o coach chileno, qualquer diálogo importante. Para o desenvolvimento das competências técnicas, creio que já existam boas escolas e cursos de pós-graduação. Podemos também aprender boa parte dessas competências no próprio trabalho. No entanto, parece que tudo isso não deve estar ajudando muito as empresas a cumprir com a sua verdadeira missão nesse novo mundo exigente e dinâmico. É preciso compreender que a diferença, de fato, está nas pessoas, como bem disse Peter Drucker: "São as pessoas que realizam o trabalho.
Não é o dinheiro, não é a tecnologia. Portanto, a principal tarefa do executivo é tornar as pessoas produtivas". Para que isso ocorra, penso que as empresas deveriam buscar alternativas que permitissem que as pessoas pudessem exercer o papel profissional sempre baseado na utilização das competências humanas citadas acima. Do contrário, passaremos um pouco mais de tempo vivendo a ilusão de que as pessoas, como muitas empresas gostam de afirmar, são os seus maiores ativos.
Gilberto de Moraes é Psicólogo, Coach, Consultor da Support Assessoria Empresarial em Ribeirão Preto/SP e Professor Universitário.

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